Etarismo e racismo ainda travam o mercado, aponta e-book da USP
Material gratuito desenvolvido por estudantes da ECA/USP reúne dados, conceitos e ferramentas práticas para empresas e profissionais de comunicação lidarem com diversidade de forma mais consistente.
A discussão sobre diversidade avançou nas empresas, nas universidades e nas redes sociais, mas ainda esbarra num ponto incômodo: transformar discurso em prática. É justamente essa lacuna que o e-book “Diversidade: guia prático introdutório”, desenvolvido por estudantes da disciplina Relações Públicas Globais, do curso de Relações Públicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, tenta enfrentar.
Disponível gratuitamente, a publicação propõe uma abordagem direta sobre temas que seguem atravessando o mercado de trabalho e a vida cotidiana, como etarismo, racismo estrutural, maternidade, deficiência, refúgio, população trans, povos originários e desigualdades de gênero, raça, idade, origem e capacidade.
O material parte do conceito de “corpos dissidentes”, expressão usada para tratar de existências que escapam das normas socialmente dominantes. A partir daí, o guia mostra como determinados grupos continuam sendo menos reconhecidos, menos ouvidos e, muitas vezes, menos contratados. O e-book também aponta como esses marcadores se cruzam e produzem barreiras mais complexas no acesso a direitos, oportunidades, segurança e reconhecimento social.

Entre os temas abordados, o etarismo aparece como um dos pontos centrais. O material discute como pessoas com mais de 40 anos ainda enfrentam exclusão no mercado de trabalho e em espaços sociais, muitas vezes de forma naturalizada. Sim, quarenta. No Brasil corporativo, às vezes parece que passou dos 39 já vira peça de museu, o que diz muito mais sobre o mercado do que sobre quem trabalha.
A maternidade também ganha espaço na publicação, com foco na sobrecarga física e emocional ainda atribuída majoritariamente às mulheres. O guia trata do impacto dessa lógica na carreira, na autonomia feminina e na forma como o cuidado segue sendo romantizado, mas pouco dividido.
Outro eixo importante é a realidade das pessoas com deficiência. A publicação propõe uma mudança de olhar: sair do modelo centrado apenas na condição individual e avançar para uma abordagem social, voltada à eliminação de barreiras e à promoção da acessibilidade.
O e-book ainda discute o racismo estrutural e seus efeitos históricos na limitação de oportunidades e no acesso a direitos. Também aborda o apagamento cultural dos povos originários e a necessidade de reconhecer diferentes formas de conhecimento, existência e pertencimento. No caso de refugiados, o material reúne dados que apontam mais de 454 mil solicitações de refúgio no Brasil entre 2015 e 2024. Já pessoas trans aparecem no guia como grupo que ainda enfrenta obstáculos severos no acesso à segurança, à empregabilidade e ao reconhecimento social.

Um dos diferenciais do projeto é a abordagem interseccional. Em vez de tratar cada tema de forma isolada, o material mostra como desigualdades se sobrepõem. Uma mulher negra, uma pessoa trans refugiada ou uma mãe com deficiência, por exemplo, não enfrentam apenas uma barreira por vez. A vida real raramente vem em caixinhas tão organizadas quanto uma planilha de RH.
Além da parte teórica, o guia propõe atividades práticas, dinâmicas, jogos, estudos de caso e análises de obras culturais. A ideia é servir como ponto de partida para estudantes, profissionais de comunicação, empresas e instituições que queiram aplicar os aprendizados no cotidiano, da comunicação interna às políticas corporativas.
“Apesar do avanço das discussões sobre diversidade, ainda há uma lacuna importante de conteúdos aplicáveis no mercado. O objetivo do guia é democratizar o acesso à informação e apoiar estudantes e profissionais da comunicação de diferentes regiões do Brasil na incorporação desses temas em sua prática cotidiana”, afirma a professora Maria Aparecida Ferrari, docente do curso de Relações Públicas da ECA/USP.
O e-book foi coordenado por Maria Aparecida Ferrari e pela pesquisadora pós-doutoral Kalliandra Quevedo Conrad, em parceria com o Grupo Trama Reputale. Segundo a organização, o conteúdo desenvolvido pelos estudantes passou por revisão de pesquisadores e especialistas das áreas de comunicação e diversidade.
A produção gráfica e ilustrativa ficou a cargo da Trama Reputale, que buscou traduzir o conteúdo em uma linguagem visual acessível e alinhada às novas gerações. “Essa obra é fruto de um trabalho coletivo profundamente transformador, que une rigor acadêmico, sensibilidade e olhar humano. A diversidade é apresentada como prática e vivência, e isso também se reflete no cuidado com o design”, afirma Leila Gasparindo, CEO do Grupo Trama Reputale.
Para Kalliandra Conrad, o projeto também valorizou o protagonismo dos estudantes. “Foi um processo altamente colaborativo, que valorizou o protagonismo dos estudantes sem descaracterizar suas produções. O resultado é um material relevante tanto para a formação acadêmica quanto para o mercado, ampliando o acesso a informações qualificadas sobre diversidade”, diz.
O guia chega em um momento em que empresas são cada vez mais cobradas por coerência entre discurso institucional e prática interna. Falar de diversidade virou comum. Sustentar políticas consistentes, rever estruturas e mudar comportamentos, aí já é outra conversa. E é justamente nesse ponto que o material tenta colocar o dedo. Sem gritar, mas também sem passar pano.
E-book: “Diversidade: guia prático introdutório”
Realização: estudantes da ECA/USP, com coordenação de Maria Aparecida Ferrari e Kalliandra Quevedo Conrad
Parceria: Grupo Trama Reputale
Acesso: gratuito
Tema: diversidade, inclusão, comunicação e mercado de trabalho






